Voltando com o blog, sem qualquer pretensão maior do que ser um mero backup de textos (já publicados, que serão publicados ou que jamais o serão).
Recomeçando por um assunto presente no dia-a-dia das pessoas. Que sempre está na boca do povo quando vão discutir política. O "rombo da Previdência" e o "bolsa-esmola" (maneira que os que são contrários tratam a Bolsa-Família e outros programas do governo) são apontados como os grandes problemas para o país estar na situação em que se encontra.
Interessante essa visão que se criou, os cidadãos que são assistidos com programas sociais são enxergados, por aqueles que não fazem uso, como parasitas. Na visão de boa parte da sociedade o dinheiro dos impostos estão indo para sustentar "vagabundos" que "não querem trabalhar". Afinal de contas, o que aconteceu?
Relendo O Mal-Estar da Pós-Modernidade de Zygmunt Bauman me atentei quando ele trata dessa questão no capítulo Os Estranhos na Era do Consumo.
Bauman retoma a ideia inicial de "estado de bem-estar", originalmente concebido para reabilitar temporariamente os inaptos e estimular os que estavam aptos a se empenhar ainda mais, protegendo-os do medo de perder a aptidão no meio do processo. Era concebido como um direito do cidadão e não caridade. Não como donativos individuais mas sim como seguro coletivo. Essa idéia perdurou por alguns anos, porém foi perdendo força e ganhando muitos opositores.
A previdência se torna então estigmatizada. Dos incapazes e imprevidentes, se torna humilhante recorrer à ela, os que o fazem são difamados. "Sugam o dinheiro dos contribuintes", são vistos como parasitas pela sociedade. Versão contemporânea do pecado recompensado segundo Bauman.
Os pecados que o estado de bem-estar originalmente pagava eram os causados pelo capitalismo. A competição, os custos sociais em existências despedaçadas e vidas arruinadas para a reprodução do sistema. Custos que o capitalismo se recusava a pagar, ou não podia sob o risco de insolvência. O estado de bem-estar assumia os custos de indenizar as vítimas do sistema e resguardar as possíveis vítimas.
Quando a sociedade diz que não é possível mais custear isso, está dizendo que não é mais desejável pagar os custos sociais e humanos da solvência econômica. Transferindo então o pagamento às próprias vítimas, não há mais seguro coletivo contra os riscos. O individualismo prevalece e é cada um por si.
A responsabilidade pela situação humana foi privatizada. Os revolucionários ou reformistas mais radicais são vistos como ameaças à ordem que já é frágil pois não há mais fortes meios que garantam a continuidade da mesma.
A saída do indivíduo do papel de produtor para ser apenas consumidor desestimula a fundamentação da esperança em ações coletivas. O consumo, ao contrário da produção, é uma tarefa individual que coloca os indivíduos em campos opostos em que frequentemente se atacam.
Quanto maior a “procura do consumidor”, ou seja, a sedução do mercado, mais próspera e segura é a sociedade de consumidores. A sedução atinge todos, porém é muito maior o número de pessoas que não podem satisfazer o que os impulsos sedutores ditam do que as que podem. “A sedução do mercado é ao mesmo tempo a grande igualadora e a grande divisora”.
Os que não podem agir conforme o desejo do impulso são regalados diariamente com aqueles que podem. O consumo abundante é o caminho para o sucesso, é o caminho para a felicidade e em alguns casos para a dignidade humana.
Por fim, encerro com uma citação direta da obra, que define de forma perfeita a situação atual do mundo ocidental numa excelente metáfora:
"Em nenhum jogo de cartas são idênticas as cartas recebidas, portanto o conselho para se aproveitar bem as cartas de que se dispõe sugere que devem ser usados quaisquer recursos que se consiga reunir. Do ponto de vista dos proprietários do cassino, alguns recursos — os que eles próprios alocam ou põem em circulação — são moeda legal, no entanto, todos os outros recursos — os fora de seu controle — são proibidos. A linha que separa o lícito do ilícito não parece a mesma, contudo, do lado dos jogadores; e, particularmente, do lado dos pretensos jogadores aspirantes e, mais particularmente, do lado dos jogadores aspirantes incapacitados, que não têm acesso à moeda legal. Estes devem lançar mão dos recursos que de fato possuem, quer reconhecidos como legais ou declarados ilegais — ou optar por sair totalmente do jogo. A força sedutora do mercado, porém, tornou este último movimento quase impossível de se pretender." (p. 56)
O fim da coletividade parece ser o problema maior a ser enfrentado. O individualismo trouxe, além da oposição aos "programas sociais" no Brasil, também violência. Grupos neo-nazistas e racistas tomam como princípio justamente essa visão individualizada, de que carregamos um "fardo nas costas" ao dar assistência à outro cidadão, claro que com toda a "fundamentação" racial que eles criam. Com a ideia de "seguro coletivo" não existiria a discriminação contra a dita "classe baixa".