terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Egito e Internet, o que esperar daqui pra frente?


Ontem tivemos o dia mais intenso das manifestações populares no Egito. Manifestação essa que ficou conhecida por começar no campo "virtual" e partir pro campo "real" posteriormente. Toda a organização se deu através da internet, mesmo ela sendo limitada no país.

O perfil libertador da internet parece que por um momento ressurge quando nos deparamos com tal fato. Quando a internet sai do domínio militar e adentra as universidades dos EUA, ainda buscando uma forma, ela muda completamente o seu foco. Se antes era um sistema de defesa militar visto a ameaça de uma guerra nuclear, agora se tornava um campo de debates e compartilhamentos.

O antropólogo espanhol Manuel Castells em sua obra Galáxia da Internet chama a atenção que a rede era inclusive usada, nas universidades, para compra e venda de maconha. Estamos falando da década de 50 e 60.

Outro movimento interessante que começou pela internet foi o Aswat (Vozes em árabe), nome do grupo fundado por Rauda Morcos, com o slogan “Somos Palestinas, Somos Mulheres e somos Lésbicas” luta pelos direitos homossexuais, em especial das mulheres, promovem reuniões onde palestinas, árabes e israelenses se juntam para discutir a quebra desse tabu em seus países. Começou como um fórum na internet em 2002 ganhado muita notoriedade, no ano seguinte cria-se o site e hoje recebe apoio de ONGs americanas e européias além e prestar suporte através do site aos homossexuais de origem árabe em todo o mundo.

http://www.aswatgroup.org/english


Os BBSs foram a primeira manifestação popular da cultura comunitária virtual, como por exemplo, o Kinky Komputer em São Francisco, orientado para o sexo, um dos mais famosos BBSs da época. O ICG foi pioneiro na promoção de causas sociais, como a paz mundial e a preservação do meio ambiente. Este instalou também a rede feminina La Neta, usada por zapatistas mexicanas com o propósito de conseguir apoio na luta contra a exploração da minoria indígena no país. Na União Soviética havia a RELCOM, criada por acadêmicos, que foi importante na luta pela liberdade de expressão e pela democracia nos momentos críticos da perestroika.

Esse último parágrafo foi tirado do meu TCC e apresentam informações contidas no livro de Castells mencionado anteriormente.

O uso da internet para esse fim mostra o poder dela. Pois não há mediação, não é uma mensagem previamente "esculpida" por um grupo. A informação vem "a partir de baixo", como coloca o historiador Peter Burke. Sente-se a real segurança de não ser o único que compartilha com uma idéia, o que de fato motivou tantas pessoas a sairem nas ruas, e tantas outras posteriormente ao perceber a magnitude do protesto.

O potencial transformador da internet ainda é visto por alguns autores como sendo uma estrada de dois caminhos. Ainda seguindo as palavras de Peter Burke, que em 2002 escreveu na obra escrita em conjunto com Asa Briggs "Uma História Social da Mídia - de Gutenberg à Internet":

"Não é possível nessa altura de sua história concluir que, pela facilidade de acesso e pela transformação 'a partir de baixo', ela desempenhará um papel renovador a longo prazo. Alguns críticos até temem que a Internet mine todas as formas de 'autoridade', afete negativamente o comportamento e ameace a segurança individual e coletiva." (p. 14)

Bem, se passaram 9 anos e as respostas já começam a ser dadas. O que encontramos são as manifestações dessas duas possibilidades colocadas pelo autor. Se por um lado temos os grupos citados anteriormente e mais recentemente a questão do Egito. De outro encontramos grupos radicais, organizações criminosas difundindo suas ideologias na rede, incitando violência e organizando-se também para atividades fora do "virtual".

Como exemplo recente temos os casos das agressões à jovens em São Paulo por supostamente, segundo os agressores, serem homossexuais. Esse episódio teve início numa rede social na internet, os agressores difundiam suas mensagens de intolerância e não obstante se organizaram e partiram para manifestações fora da rede.

Após o episódio do Egito, o prognóstico para os demais países na mesma situação parece ser o mesmo colocado por Burke em 2002. Não se sabe ainda que rumo irá tomar: outros países irão fazer uso da mesma ferramenta para tal fim; ou o Estado irá tentar controlar o acesso da população.



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